quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Não eu, nós. l

Um quarto recém pintado com um tom que lembra um pouco areia, um rádio ligado, uma cama bagunçada. Ele segurou a minha mão, me transmitindo paz, segurança. Abraçou-me apertado, me olhou e soltou aquele sorriso que é contagiante, arrancando de mim o medo que me consumia, pintando essas minhas pequenas paredes chamadas de "VIDA" com cores fortes e alegres. Ele me olhou diretamente nos olhos. Minha felicidade era inteiramente proporcionada por ele. A música que tocava encaixava-se perfeitamente com o momento, como se fosse uma peça do destino. Cada palavra que ele dizia virava poesia. Melodia. A chuva continuava a cair lá fora e ainda sim nada fazia sentido a não ser nossos corpos se encontrando. Na cabeceira de cama uma barra de chocolate pela metade, um celular desligado, um porta retrato com a nossa primeira foto, a chave do carro e uma flor vermelha. Após minutos ele levanta, passa a mão sobre meus cabelos, acaricia o meu rosto, deixa escapar um suspiro, sorri e apenas para completar fala baixinho com a voz cansada

- Eu te amo .

Nesse exato momento escuto um som. O despertador. Ao acordar pude perceber que estava em casa sozinha, solitária como todas as manhãs. Havia sido um sonho e que sonho. Peguei o celular em baixo do travesseiro e percebi que já era 5:50. Levantei-me e permaneci por alguns minutos sentada na cama onde pude perceber que algo estava escorrendo dos meus olhos. Lágrimas. Caminhei até o banheiro ainda bambeando de sono, tomei um banho, vesti a primeira roupa que havia visto no armário e segui meu caminho pensando " ..espero que a noite chegue logo, para mais uma vez poder sonhar com meu amado.. "
Enfim, a noite chegou e ela acabará de tomar banho para deitar-se. Na manha quando acordou, sentiu-se muito decepcionada, pois não sonhará com seu amado. Cansada de sempre imaginar finais felizes com seu querido amor nos sonhos, saiu decidida a amar, não somente em sonhos, mas nas outras 12h de sua vida que passa acordada. Foi-se em direção a casa dele e de frente para a porta, quase desistindo de continuar, apertou a campainha, e não acostumada a se surpreender, surpreendeu-se com a feição desconfigurada no rostou de quem, por ventura, abrira a porta e dera algumas palavras ásperas. - O que a suposta amiga dele estaria fazendo por essas horas na casa dele? - questionou-se, Valentina, cansada de sua caminhada à casa de Bernardo. Nunca fora movida por impulsos, e quando decidiu agir sem pensar, um turbilhão de arrependimentos fez morada em seu coração cansado de se cansar. Com os fones no ouvido, teletransportou-se a um mundo paralelo onde os sonhos se fazem realidades acordadas.
Mal pode conter-se quando em sua mente repetia continuamente trechos da música "Quem além de você?", e desabou em rios - afluentes sem fim. Não notara que havia rumado a um caminho oposto de sua casa, e quando sentiu-se perdida, só se viu meio a um vazio. Não sabia ao certo o que pensar ou o que fazer. Ela queria apenas fugir, ir para bem longe. Onde quem sabe ela pudesse continuar a viver a mesma vidinha hipocrita ao qual vinha vivendo por anos. No meio dessa sua perdição, após ter ido a um caminho que não era o de sua casa, ela entrou em seu momento de reflexão e perceberá que nem prestou atenção em nenhuma das palavras de quem a atenderá. Cansada de caminhar deu-se o luxo se sentar um pouco. Simplesmente, começou a chorar sem ao menos ter um motivo - ela acreditava que tinha motivo. Dentre sua reflexão e perdição, ela se depara com Bernardo. Correndo como ele sempre fazia todas as manhas, ouvindo seu mp4, que, coincidentemente, tocava a mesma musica que ouvia. Naquele momento, já um pouco mais calma lembrou-se que na parte da manhã ele nunca estava em casa. Levantou-se do banco onde estava e seguiu em direção a ele.

Não eu, nós. ll

Ainda com o rosto inchado de tantas lágrimas que fluíram de seus olhos, ela chegou perto dele e sem ao menos ele ter uma reação, ela o abraçou e contou tudo o que vinha sonhando durante há muito tempo, e retirou todo o fardo pesado de seus ombros, revelando, o que era seu maior segredo. Ele ainda sem reação, e completamente sem palavras em relação o que acabará de ouvir, passou sua mão em seu rosto e com o polegar direito retirará uma das lágrimas que ainda desciam por seu semblante. “Por que após revelar-me este sentimento, que és lindo e que guardaste durante anos, chora?”, perguntou Bernardo. Um choro que se misturava e se confundia com tristeza e alegria. Tristeza por ainda não saber o que Camille estava a fazer naquela manha, após sua face, demonstrar que ela havia passado a noite na casa dele. Alegria por estar a sua frente e saber que ele não estava com ela.

- Fui a sua casa e Camille me atendeu, com uma camisola rosa e com o rosto aparentando que acabará de acordar.

- Ah sim, claro. Ela esta morando comigo por uns tempos até o apartamento dela, que está em obras, ficar pronto.

Um leve sorriso se formava em seu rosto. O sonho que havia se transformado em pesadelo, voltará a ser sonho novamente. Que tola ela havia sido. Talvez tudo já estivesse escrito no livro desse tal "destino". Talvez aquilo tudo era apenas uma conseqüência da atos feitos sem pensar, mas que no fim levariam os dois ao exato lugar onde estavam. Apenas não importava mais.
Bernardo percebendo o mal entendido que havia ocorrido por Camille ter dormido em sua casa, tenta com pequenas palavras explicar a Valentina que o que ela havia imaginado não tinha lógica. Ele nunca tivera nada com Camille a não ser amizade.
Na rua as árvores estavam com as folhas verdes e bem floridas. Alguns pássaros cantavam, quebrando assim o silêncio que havia tomado conta. A algum tempo atrás eram apenas amigos, depois apenas mais um simples casal de namorados. Hoje, dois jovens que ainda se amavam. Fugiram por tanto tempo, esforçando-se para esquecer o passado. Apagar de suas memórias aquilo que haviam vivido juntos. Só que mais uma vez o desejo ou destino - não sei - os colocou cara a cara. Respiravam devagar, paralisados. Os segundos pareciam inabaláveis. O olhar apaixonado com plena consciência de amor, desejo, sonhos, atos.

- Perdão por ter deixado passar tanto tempo. Eu sempre pensei que...
As próximas palavras de Valentina foram sufocadas por um longo beijo. Beijo esse que lhe fazia falta a tempos. Ela já havia até esquecido de como era boa a sensação de estar nos braços de Bernardo . O jeito e o cheiro e a luz e o som e o mundo pareciam ter deixado de existir em um segundo infinito de silêncio. Após o beijo, todo o desenho, cada traço e até aquele tom rosado da boca era perfeitamente angelical, o leve sorriso iluminava tudo ao redor.
Começaram a caminha em direção a casa de Bernardo, falavam de coisas que deixaram de viver. Para ela, parecia que aquele era o dia mais feliz da sua vida. Valentina estava feliz de corpo e alma.

- Aqui estou eu, mais uma vez! Vejo você amanhã? - diz Valentina ao se dar conta que já haviam chegado a casa de Bernardo.

- Valentina, acho que não.

- Não? Mas como você...

- Eu vou viajar amanhã. - ele a interrompe.

- Como assim viajar?

- Vou aproveitar que Camille está moramdp aqui em casa enquanto o apartamento dela esta em obra e vou fazer uma viajem.

- Eu, eu vou com você!.

- Eu, eu te... - e meio a tantas lágrimas Bernardo não consegue terminar sua frase.

- Como pode? Me diz como você pode fazer isso comigo, e aquele beijo, aquelas palavras, como pode me amar se mais uma vez vou ter que vê-lo partir? - Valentina tomara força de onde nem sabia que havia. Jogou o mp4 com tanta força no chão que os pedaços do "mini-rádio" explodiram, ficando todos espalhados pelo chão.

- Eu preciso ir, você precisa me entender.

- Que ir? Então vai.

- Valentina, eu te amo.

- Não ama. - ela o corrigi.

- Um dia quem sabe você me entenda.

- Não vou.

E essa foi a última vez que Bernardo escutou a voz de Valentina. Ao chegar na esquina Valentina se vira e fixa os olhos bem nos olhos do amado. Não era preciso dizer mais nada, aquele olhar já dizia tudo "adeus".

Não eu, nós. lll

Como seu mais intimo desejo, Bernardo queria apenas que Valentina o entendesse. Camille que da varanda escutava a conversa foi até o portão para tentar de alguma forma consolar o amigo.

- Eu a amo.

- Eu sei Bêh.

Ao amanhecer, Valentina ainda com os olhos inchados de tanto chorar e aquela sensação de que devia fazer algo para impedir que Bernardo partisse, levanta-se e disposta a fazê-lo desistir daquela loucura corre em direção a casa que ontem havia sido cenário de uma das piores peças que o destino podia ter pregado. Totalmente decidida ela aperta a campainha, nada. E mais uma vez, nada. Chegara tarde de mais, Bernardo já havia partido e provavelmente Camille deve tê-lo acompanhado até o aeroporto. Ao sentar na calçada chorando depara-se com um bilhete em baixo do portão. Curiosa como sempre fora, da um jeito de puxar o papel, já que grande parte estava para fora. Era como se alguém tivesse o colocado ali propositalmente. Ao pegar, deparou-se com o seu nome escrito bem na frente do envelope. Era uma carta. Uma carta feita especialmente para ela.
Mas uma vez o tal "destino", se é que ele realmente existe, preparou uma para Valentina. Em seus pensamentos "maldita vida". Os segundos passavam e o medo só aumentava e tomava conta de todo o seu pensar, agir. Ainda com o envelope na mão Valentina estava com medo do que podia estar acontecendo. Ela não queria, mas tinha que abrir. Logo deparou-se com dois papeis. O primeiro era um exame, e apenas uma palavra chamou-lhe a atenção e tudo fez sentido.
Leucemia

E no segundo, haviam frases incompletas, porém uma, apenas uma estava escrita até o fim.

Valentina

perdoe-me por tudo. Eu nunca quis magoar

Perdão. Eu devia ter

Não sei como pedir desculpas, mas por favor entenda, fiquei noites e noites

Valentina. Nunca fui bom com palavras, mas

Eu sempre vou te amar.
Bernardo.